A HORA DA ESTRELA – CLARICE LISPECTOR

Título: A Hora da Estrela

Autor: Clarice Lispector

Editora: Rocco

Número de páginas: 87

Classificação: ★★★★★
Sinopse: A nordestina Macabéa, a protagonista de A Hora da Estrela, é uma mulher miserável que mal tem consciência de existir. Depois de perder seu único elo com o mundo, uma velha tia, ela viaja para o Rio, onde aluga um quarto, se emprega como datilógrafa e gasta suas horas ouvindo a Rádio Relógio. Apaixona-se, então, por Olímpio de Jesus, um metalúrgico nordestino, que logo a trai com uma colega de trabalho. Desesperada, Macabéa consulta uma cartomante, que lhe prevê um futuro luminoso, bem diferente do que a espera.

RESENHA: 

Clarice Lispector e seu jeito todo especial e próprio de escrever neste livro nos leva a refletir sobre um aspecto singular da vida social: o desamparo. O sentimento de abandono, perdição, solidão em meio a um mundo extremamente populoso. É um dos melhores livros que já li e que me fez pensar muito nessas questões.

“O fato é um ato? Juro que este livro é feito sem palavras. É uma fotografia muda. Este livro é um silêncio. Este livro é uma pergunta.” (pg 17)

Neste livro repleto de questões não respondidas e reflexões profundas acerca da vida de cada um e da vida de todos como um só, Clarice fala através de Rodrigo S. M., seu alter ego masculino criado para disfarçar sua sensibilidade feminina, porém sem sucesso.

“Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho. 
 
Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever.” (pg 11)
“Mas que ao escrever – que o nome real seja dado às coisas. Cada coisa é uma palavra. E quando não se a tem, inventese-a. Esse vosso Deus que nos mandou inventar.
 
Por que escrevo? Antes de tudo porque captei o espírito da língua e assim às vezes a forma é que faz conteúdo.” (pg 18)

Ele inicia se apresentando como o contador dessa história. Em seu começo extremamente metalinguístico, ou seja, o livro falando do próprio livro, ele desfia os motivos que o levaram a explorar o mundo da Nordestina Macabéa. O seu modo de escrever também é uma preocupação contínua, pois pela simplicidade da história a ser contada é exigida grande destreza e precisão nas palavras.

Acontece que nossa personagem principal é tão insignificante para a sociedade que sua história devia ser contada, e se não por ele, por qualquer outro escritor que se atrevesse a penetrar uma vida tão vazia de significado e sair dela são a ponto de transmitir tudo que viu.

“Já que sou, o jeito é ser.” (pg 34)
“Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam.” (pg 40)
“Maca, porém, jamais disse frases, em primeiro lugar por ser de parca palavra. E acontece que não tinha consciência de si e não reclamava de nada, até pensava que era feliz. Não se tratava de uma idiota mas tinha a felicidade dos idiotas. E também não prestava atenção em si mesma: ela não sabia.” (pg 69)

A história é fluida, não se divide em capítulos, assim como na vida real. E atravessa passado, presente e futuro de um parágrafo a outro, sem cerimônia ou aviso algum.

“Ela se abraçava a si mesma com vontade do doce nada. Era maldita e não sabia. Agarrava-se a um fiapo de consciência e repetia mentalmente sem cessar: eu sou, eu sou, eu sou.” (pg 84)

Macabéa já nascera miserável em meio ao sertão de Alagoas e logo pequena perde os pais. Vai viver com a tia em Maceió e a beata lhe cria na simplicidade pura, como uma planta que só se lembra de aguar duas vezes ao dia. Já os castigos, esses eram frequentes. Um começo de vida difícil para esta sombra da sociedade, nenhuma perspectiva de futuro, a desajeitada nordestina não tinha ideia nem da própria existência e se desculpava como quem ocupa um espaço indevido nesse mundo.

Uma das poucas coisas que lhe agradava era ouvir a Rádio Relógio, e sentava à mesa para ouvir todas as noites, bem baixinho para não acordar as colegas de quarto. Colecionava informações inúteis como se fossem ensinamentos raríssimos que lhe serviriam muito na vida futura. Acreditava em tudo que ouvia como verdades absolutas, mas pouco entendia daquilo que ouvia.

Um dia Macabéa encontra seu primeiro amor, o metalúrgico Olímpico de Jesus, que lhe trata sem nenhum tato, mas logo ganha seu coração sofrido. Nenhum pingo de ternura, o homem era bruto que só e se achava muito superior à coitada. Acabou por deixá-la pela colega voluptuosa com sangue do sul que lhe pareceu capaz de parir bons filhos.

Acabou-se a pouca alegria da pobre nordestina. Pouco depois ainda descobre sofrer de tuberculose pulmonar, mas não conta a ninguém. Não há para quem contar, na verdade, pois procura esconder até de si mesma.

Em última tentativa de compreender a si própria, vai procurar a cartomante indicada pela colega que lhe roubou o namorado. Muito bem acolhida, a cartomante a faz acreditar que finalmente terá um destino e este é bem melhor do que qualquer coisa que poderia esperar. Uma vez na vida experimenta esperança e sai da casinha embriagada de futuro. Futuro este que termina ao atravessar a rua.

A Hora da Estrela é apenas um poema até o fim de suas páginas. Seu sentido está em dar sentido àquilo que vagueia pelo breu de nossas mentes, lá no fundo, quase inacessível. Este livro lhe entrega centenas de questões, mas nenhuma resposta. Cabe a nós preencher as lacunas. Pois, a final, não devemos esquecer que “por enquanto é tempo de morangos”.

Aqui, o escrever é uma necessidade, onde desenvolvem-se reflexões sobre a vida e sobre a morte, sobre a palavra.
O leitor é raptado pela leitura. Desde a dedicatória que Clarice escreveu no início do livro, já percebemos que o que vai se suceder será grande. E é.
Mesmo criando um falso narrador, motivada pelo desejo de desaparecimento, Clarice não conseguiu concretizar sua saída discreta pela porta dos fundos. Em seu último livro publicado em vida fica provado que ela era realmente a mestra de sua literatura.
Este livro é vendido pelo Submarino e já vi na Saraiva também, vale muito a pena a leitura.
Espero que tenham gostado, Até mais!
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